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Estratégia

Por que metade dos product managers está em crise (e como sair dela)

A crise dos PMs não é sobre IA substituindo pessoas. É sobre uma profissão que cresceu rápido demais sem definir o que realmente entrega.

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Nikhyl Singhal passou por Meta, Google e algumas das operações de produto mais maduras do mundo. Quando ele escreve que metade dos product managers está em crise existencial, não é exagero retórico. É diagnóstico de quem viu a profissão crescer — e agora vê os sinais de correção.

O que está acontecendo não é simplesmente “a IA vai substituir PMs”. Isso seria fácil de processar. O problema real é mais estrutural: a profissão escalou sem nunca resolver o que a diferencia de um coordenador de projetos bem pago.

O crescimento que criou o problema

Product management virou a carreira desejada do tech nos últimos dez anos. Salários altos, status de “mini-CEO”, promessa de influência sem precisar codar. O mercado respondeu à demanda: bootcamps, certificações, frameworks, livros, podcasts.

O resultado foi uma explosão de profissionais que sabem articular bem, dominam a linguagem de produto, conhecem os rituais — mas não necessariamente entregam resultado de negócio mensurável.

O problema não é que esses profissionais sejam incompetentes. É que a definição do papel ficou vaga o suficiente para acomodar perfis muito diferentes sob o mesmo título. E quando vem pressão — seja de layoffs, seja de automação — os primeiros a serem questionados são aqueles cujo impacto é mais difícil de demonstrar.

Os dois tipos de PM que existem hoje

Singhal faz uma distinção que considero precisa: existem PMs que são donos de resultado e PMs que são facilitadores de processo.

PM facilitador

  • Organiza cerimônias e alinha times
  • Traduz requisitos entre áreas
  • Garante que o backlog está priorizado
  • Mede sucesso por entregas feitas

PM dono de resultado

  • Define qual problema resolver e por quê
  • Decide trade-offs com base em impacto
  • Assume responsabilidade por métricas de negócio
  • Mede sucesso por resultado gerado

O PM facilitador não é inútil — em algumas organizações, esse papel é genuinamente necessário. O problema é quando esse perfil se apresenta (e é remunerado) como se fosse estratégico.

A IA acelera essa distinção. Ferramentas de automação conseguem fazer boa parte do trabalho de facilitação: resumir reuniões, organizar backlogs, gerar specs iniciais, sintetizar feedback de usuários. O que elas não fazem é decidir o que vale a pena construir e por quê.

Por que a crise é estrutural, não tecnológica

Seria conveniente culpar a IA. Mas a crise dos PMs já existia antes do ChatGPT. A tecnologia apenas acelerou uma correção que vinha se formando:

1. Muitas empresas contrataram PMs demais, cedo demais. Startups em fase de crescimento montaram times de produto baseadas em benchmarks de empresas maduras. O resultado: estruturas infladas para o estágio real do negócio.

2. O papel foi vendido como estratégico, mas operado como tático. A narrativa de “mini-CEO” criou expectativa de influência que raramente se materializou. Muitos PMs descobriram que, na prática, eram gestores de backlog com acesso a reuniões de liderança.

3. A métrica de sucesso nunca ficou clara. Em engenharia, você entrega código que funciona. Em vendas, você bate meta. Em produto, o que você entrega? Essa pergunta nunca teve resposta padronizada — e cada empresa criou a sua.

O que separa quem sobrevive de quem fica obsoleto

A análise de Singhal aponta para um conjunto de competências que estão se tornando não-negociáveis. Não são skills novos — são skills que sempre diferenciaram os melhores PMs, mas que agora viraram pré-requisito:

  • Capacidade de definir problemas que valem a pena resolver (não só priorizar soluções)
  • Fluência em dados suficiente para questionar análises, não só consumi-las
  • Habilidade de tomar decisões com informação incompleta e defender o racional
  • Entendimento real de como o negócio ganha dinheiro
  • Capacidade de dizer não — e sustentar a posição

O que chama atenção nessa lista é que nada é sobre ferramentas ou frameworks. Tudo é sobre julgamento, clareza de pensamento e responsabilidade por resultado.

O paradoxo da IA para PMs

Aqui está o que poucos estão falando: a IA pode ser a maior ameaça ou a maior alavanca para product managers — dependendo de como você se posiciona.

Se o seu valor está em organizar informação, sintetizar inputs e produzir documentação, você está competindo com ferramentas que fazem isso mais rápido e mais barato. A conta não fecha.

Mas se o seu valor está em decidir o que construir, a IA se torna ferramenta de amplificação. Você consegue testar hipóteses mais rápido, analisar mais dados, prototipar mais cenários. O gargalo deixa de ser capacidade de execução e passa a ser qualidade de julgamento.

O que fazer se você é PM hoje

Vou ser direto: se você está lendo isso e se identificou com o perfil de “facilitador”, o momento de ajustar é agora — não quando o próximo ciclo de layoffs chegar.

Primeiro, tenha clareza do seu impacto. Você consegue apontar uma métrica de negócio que melhorou por causa de uma decisão sua? Não uma feature que você lançou — uma métrica que mudou. Se não consegue, esse é o gap a fechar.

Segundo, aproxime-se do dinheiro. Entenda como sua empresa gera receita, onde estão as margens, o que move o ponteiro. PMs que não entendem o modelo de negócio viram executores de roadmap de outras pessoas.

Terceiro, use IA para amplificar, não para parecer produtivo. Gerar mais specs, mais PRDs, mais análises não é progresso. Tomar decisões melhores, mais rápido, é.

Quarto, aceite que o título pode mudar. Talvez o papel que você descreve como PM hoje seja chamado de outra coisa em três anos. O que importa não é o nome — é a competência de definir o que vale construir e garantir que seja construído direito.

A correção que vem aí

O mercado de produto vai passar por uma correção. Não apocalíptica, mas real. Times menores, expectativas mais altas, menos espaço para ambiguidade sobre quem entrega o quê.

Para quem está bem posicionado — com clareza de impacto, fluência em negócio e capacidade de decisão — isso é oportunidade. Menos ruído, mais espaço para quem realmente resolve.

Para quem construiu carreira em cima de rituais e facilitação, o momento é de honestidade. O mercado que permitiu isso está mudando. Adaptar agora é escolha. Adaptar depois é reação.

Retrato de Raphael Pereira

Autor

Raphael Pereira

Designer e estrategista focado em experiências digitais orientadas por performance.

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