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Engenharia Ágil com IA: Quando o 'Vibe Coding' Vira Produção

O código gerado por IA deixou de ser curiosidade. Agora é decisão de arquitetura.

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Tem uma expressão nova circulando entre devs: “vibe coding”. O termo surgiu em 2024, ganhou tração com figuras como Andrej Karpathy e Simon Willison, e descreve algo que muita gente já faz sem nome: deixar a IA gerar código enquanto você guia a direção, ajusta o resultado, e aceita que nem tudo precisa ser escrito à mão.

O problema é que a discussão ficou presa entre dois extremos. De um lado, entusiastas tratam isso como revolução. Do outro, céticos descartam como brincadeira de fim de semana. Nenhum dos dois ajuda quem precisa decidir se isso entra ou não no processo de um time real.

Esse artigo tenta ser útil para essa decisão.

O que é vibe coding, afinal

Simon Willison define vibe coding de forma pragmática: é escrever código aceitando intencionalmente que você não vai entender 100% do que foi gerado. Você descreve o que quer, a IA produz, você testa, ajusta, e segue em frente.

Isso não é novo na essência. Devs sempre copiaram snippets do Stack Overflow sem ler cada linha. A diferença agora é a escala e a continuidade: em vez de buscar uma função específica, você conduz uma conversa que gera arquivos inteiros, fluxos completos, às vezes sistemas pequenos de ponta a ponta.

Na prática, o entendimento passa de pré-requisito para revisão. Você não precisa saber escrever cada linha antes de começar. Mas precisa conseguir ler, testar e corrigir o que foi gerado. Isso exige um tipo diferente de competência, não a ausência dela.

A diferença entre hobby e produção

Willison faz uma distinção que muita gente ignora: vibe coding funciona bem para projetos descartáveis. Scripts únicos, protótipos de validação, ferramentas internas que você aceita jogar fora se quebrarem.

O risco aparece quando você trata código gerado por IA com o mesmo critério de código de produção sem ajustar o processo. Código de produção tem outras exigências: precisa ser mantido, debugado, auditado, escalado. Se o time não entende o que está rodando, o custo de manutenção explode.

Vibe coding para protótipo

  • Aceita código sem revisão profunda
  • Foco em velocidade de validação
  • Descarte é opção aceitável
  • Um dev basta

Vibe coding para produção

  • Exige revisão, testes, documentação
  • Foco em manutenibilidade
  • Código precisa durar
  • Time precisa entender o que roda

A pergunta não é “usar ou não usar IA no código”. É “qual o nível de rigor que esse código exige, e o processo atual comporta isso?”

Agentic engineering: o próximo passo

Em paralelo ao vibe coding, outro termo ganhou força: agentic engineering. Aqui, a IA não só gera código quando você pede. Ela executa tarefas de forma mais autônoma, dentro de um contexto definido. Ferramentas como Cursor, Devin e os agentes do Claude trabalham nesse modelo.

A diferença prática: em vez de prompt > resposta > revisão, você configura um agente com acesso ao repositório, às regras do projeto, aos testes. Ele propõe mudanças, roda verificações, e às vezes aplica correções sozinho.

Isso muda a dinâmica de pair programming com IA. Não é mais “você escreve, a IA completa”. É mais parecido com “você define o problema, a IA propõe uma solução, vocês iteram até convergir”.

O que muda no processo de times reais

Para times que já usam IA no desenvolvimento diário, algumas implicações práticas aparecem:

Revisão de código ganha peso. Se mais código é gerado por IA, a habilidade de revisar, questionar e corrigir fica mais importante que a habilidade de escrever do zero. Isso afeta contratação, treinamento, e a forma como você distribui tarefas.

Testes automatizados viram seguro obrigatório. Código que você não escreveu linha por linha precisa de cobertura de teste mais robusta. Não por desconfiança da IA, mas porque o custo de bug em código que ninguém lembra de ter escrito é maior.

Documentação de decisão importa mais que documentação de implementação. Se a IA pode reescrever o código, o que não pode ser perdido é o porquê daquela decisão. O contexto de negócio, os trade-offs considerados, as restrições que moldaram a solução.

Arquitetura e padrões viram guardrails, não preferências. Quando um agente gera código com acesso livre ao repo, ele segue os padrões que encontrar. Se o projeto não tem padrões claros, o agente vai inventar. Isso escala inconsistência.

  • O time consegue revisar código gerado por IA com o mesmo rigor de código humano?
  • A cobertura de testes é suficiente para pegar erros que ninguém lembrou de procurar?
  • As decisões de arquitetura estão documentadas em algum lugar acessível ao time?
  • Os padrões do projeto estão explícitos o suficiente para um agente seguir?
  • Existe clareza sobre o que pode ser vibe coding e o que exige rigor de produção?

O risco de velocidade sem direção

Há um padrão que começa a aparecer em times que adotam IA sem ajustar o processo: velocidade de entrega sobe, clareza de direção cai.

Gerar código ficou mais fácil. Decidir o que gerar continua difícil. Se o time produz features mais rápido sem validar se são as features certas, o resultado é desperdício acelerado.

Isso não é culpa da IA. É culpa de tratar IA como solução para um problema que ela não resolve. Ferramentas de geração de código ajudam na execução. Não substituem a definição de prioridades, a validação de hipóteses, o entendimento do usuário.

Quando faz sentido adotar, quando faz sentido esperar

Não existe resposta universal. Mas algumas condições tornam a adoção mais segura:

Faz mais sentido adotar quando:

  • O time já tem disciplina de testes e revisão
  • Há clareza sobre padrões de código e arquitetura
  • O projeto tem ciclos de feedback rápidos com usuários reais
  • A liderança técnica consegue avaliar código sem ter escrito cada linha

Faz mais sentido esperar quando:

  • O time ainda está formando práticas básicas de engenharia
  • Não há testes automatizados consistentes
  • As decisões de produto mudam sem registro
  • A pressão é por entregar rápido, não por entregar certo

No meu entender, a adoção de vibe coding e engenharia agentic é inevitável para a maioria dos times nos próximos dois anos. A questão não é se, é como. E “como” depende de ter processo maduro o suficiente para absorver a mudança sem perder controle.

O que fica

Vibe coding e agentic engineering não são modismos. São sintomas de uma mudança estrutural na forma como software é produzido. A geração de código por IA já é boa o suficiente para ser útil. Ainda não é boa o suficiente para dispensar julgamento humano.

O dev que prospera nesse cenário não é o que escreve mais rápido. É o que define melhor o problema, revisa com mais rigor, e sabe quando aceitar o output da IA e quando rejeitar.

Para times de produto, a implicação é direta: investir em práticas de revisão, testes e documentação de decisão. Essas práticas sempre foram importantes. Agora ficaram obrigatórias.

Retrato de Raphael Pereira

Autor

Raphael Pereira

Designer e estrategista focado em experiências digitais orientadas por performance.

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